“Vou continuar voando”, diz piauiense que sobreviveu à queda de helicóptero na Amazônia

O piauiense José Francisco Viera, 67 anos, nasceu novamente. O engenheiro é um dos sobreviventes da queda de um helicoptéro na Amazônia na última quarta-feira. Ele e os outros dois ocupantes foram resgatados no último sábado (19), por equipes da Força Aérea Brasileira (FAB)

Além do piauiense, também estavam na aeronave o piloto, tenente coronel reserva Josilei Albino Gonçalves de Freitas, e o mecânico Gabriel Silva Serra.

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José Francisco está internado em Macapá (AP) e espera ter alta nesta segunda-feira(21). “Estou aqui em observação, só para reidratar”, disse o engenheiro.

O piauiense não sofreu ferimentos graves na queda. Ele relata que, em algum momento, bateu a cabeça e ficou com um hematoma.

Chico, como é chamado pelos familiares, mora em Manaus, com a esposa e uma filha.

A família não foi até o hospital visitá-lo e espera por ele em casa.”Falei com todos os meus irmãos, com minha esposa e meus filhos. Eles estão tranquilos. Viram que eu estou inteiro”, disse.

Foto: Arquivo Pessoal 

José Francisco ao lado do piloto Josilei Albino Gonçalves 

José Francisco ainda afirma que pretende voltar ao trabalho. “Vou continuar voando. Não fiquei estressado com o acidente. Achei que tive muita sorte de sair ileso. Sai no lucro”, disse o engenheiro.

José Francisco é engenheiro formado pela Universidade Federal em Pernambuco (UFPE), tem MBA em Engenharia de Manutenção e Pós-graduação em Georeferenciamento. Ele é natural de São Miguel do Tapuio, cidade localizada a 225 km de Teresina.

Em Teresina, estudou no Colégio São Francisco de Sales, até o segundo ano do ensino médio, quando se transferiu para Recife para se preparar para prestar o vestibular na UFPE. Em 1981 colou grau em engenharia, trabalhou em São Paulo e Manaus.

Em 1987 começou a trabalhar para o Governo Federal.

O piauiense Mora há 30 anos no Amazonas. Lá é casado, com uma indígena, e tem uma filha. De sua primeira união ele tem outros filhos, que moram nos Estados Unidos e em São Paulo.

Foto: Arquivo Pessoal

Fome foi o maior desafio

José Francisco relatou aos familiares que os três dias na selva não foram fáceis.

O engenheiro piauiense trabalha há 30 anos na Funai, e desde 2020 atua na vistoria de pistas de pouso na floresta amazônica. Ele tem treinamento para sobrevivência na selva.

Segundo o irmão, o engenheiro Francisco de Paula, que mora em Recife (PE), José Francisco já havia feito longos percursos, à pé, entre aldeias na selva amazônica.

O principal problema foi a fome.

“Quando eu sentia fome tomava água”, revelou José Francisco à família.

“Passamos muita fome. No dia do acidente eu havia tomado café da manhã, não havíamos almoçado, ainda. Carregávamos um isopor com peixe na aeronave, mas só nos demos conta disso na sexta-feira, depois de muito ter sofrido com fome. Sempre que eu sentia fome tomava um gole de água”, relembra o engenheiro.

Próximo ao local da queda da aeronave existia um igarapé.

“Bebemos água do igarapé. Tomamos banho lá também”, relatou o engenheiro.

Depois da privação veio a fartura.

“Na sexta-feira almoçamos e jantamos o peixe que estava no bagageiro do helicoptero. Fiz um muquiá para secar o restante do peixe. E continuamos comendo dele no sábado, até chegar o resgate”, explicou.

Muquiá é uma técnica indígena utilizada para desidratar e conservar a carne. É utilizada onde não se dispõe de energia elétrica para se utilizar a geladeira, por exemplo.

Quando o helicóptero caiu ainda tinha combustível no tanque.

“Um membro da tripulação me ensinou a bombear o querosene do tanque da aeronave. Usamos esse querosene para fazer a primeira fogueira pequena, e mantemos ela acessa dia e noite. Também fiz uma lamparina”, explicou José Francisco.

Na selva, os dias foram de muito trabalho.

“Fiz um reconhecimento da área, para verificar o tipo de vegetação e animais que tinham no local, para o caso de precisarmos caçar para comer. Recolhemos madeira e folhas para a fogueira”, explica.

Para dormir, a equipe utilizou os kits de barraca de camping disponíveis na aeronave.

O helicóptero dispõe de dois kits de duas barracas de camping e colchão inflável. Mas eu uso kit de selva, que é formado por uma rede de naylon com mosquiteiro, para evitar os inseto. É mais agradável para dormir. Na selva é muito densa, às vezes a pessoa pensa que está com falta de ar, de tão abafado que é e dormir na rede, balançando é mais agradável”, explicou José Francisco.

O acidente

O acidente aconteceu na tarde de quarta-feira (16). José Francisco, que é engenheiro civil de formação, partia para mais uma rodada de trabalho.

Desde 2020, ele é responsável por verificar as condições de pistas de pousos de aeronaves na Amazônia.

Essas pistas são utilizadas pela Funai para levar suprimentos para aldeias indígenas e, também, para resgatar indígenas que precisam se tratar em centros urbanos.

Na rota de José Francisco haviam cinco pistas para vistoriar durante a missão.

No dia do acidente, José Francisco se dirigia para Macapá, onde a equipe almoçaria, mas o helicóptero caiu no meio do caminho.

Nos momentos que antecederam ao acidente, a comandante informou aos passageiros que a aeronave iria cair.

“No momento da queda eu tive medo. Quando tudo parou, o comandante perguntou se estávamos bem. Ficamos alegres, felizes, nos abraçamos, e o comandante, que é muito religioso, fez uma oração para a agradecer a Deus o milagre que vivemos. Depois sentamos para conversar sobre tudo que aconteceu”, relembra o piauiense.

Francisco relatou à sua família que o comandante da aeronave passou uns 15 minutos buscando um local, mais propício, para descer. Em determinado momento ele teria dito “ali tem uma ilha”. Em poucos segundo direcionou a aeronave ao local e caíram.

“A árvore onde batemos tinha uma copa muito forte. E isso amorteceu a queda. Alguns galhos foram quebrando e a aeronave foi caindo, até chegar ao solo”, explicou José Francisco.

O resgate

Na situação em que José Francisco e outros passageiros e tripulantes estavam era necessário fazer fogo. “A única forma de informar a nossa localização, para as aeronaves de reconhecimento, é por meio da fumaça. Passamos dois dias recolhendo folhas e madeira. Amontoamos e esperamos o barulho dos aviões para colocar fogo nela”, explicou o engenheiro.

Mas era preciso fazer muita fumaça.

“Para ultrapassar a copa das árvores, que chegam a 30 metros, é preciso muita fumaça. A copa das árvores funciona com uma estufa. O ar quente sobe, mas uma parte fica represado na copa das árvores. Mesmo assim deu certo. Eles viram nosso sinal e responderam nossos pedidos de socorro no rádio da aeronave. Quando acendemos a fogueira grande, para sinalizar aos aviões ficou muito quente lá embaixo, mas deu certo”, explica o engenheiro.

Com os equipamentos que dispunha, José Francisco disse que sabia o lugar onde estava, mas precisava de suprimentos para fazer a viagem.

Eles estavam próximo ao Rio Iratapuru, a cerca de 70 quilômetros do município de Pedra Branca do Amapari, na região central do Amapá.

“O GPS apontava que eu estava há 50 km da aldeia mais próxima. Em outra direção estava o igarapé Jari, lá tem muita movimentação de garimpeiro. Poderíamos chegar lá em 4 dias, mas precisávamos de suprimentos para a viagem. Era possível caminhar três quilometros de manhã e três de tarde. Mas sem suprimentos não teríamos chance”, relembra o engenheiro.

Então a decisão da maioria foi permanecer no local do acidente.

Sempre que escutavam o barulho de aeronaves o comandante utiliza o rádio para pedir socorro. Mas a resposta só veio no sábado (20).

“Na quinta-feira (17) escutamos o barulho de um avião, mas não tivemos retorno no rádio. Na sexta-feira (18), o barulho foi mais longe. Achamos que poderia ser um avião de carreira, mais alto e, também, não conseguimos contato pelo rádio. No sábado (19), por volta das 10h, a resposta ao nosso pedido de socorro veio. No rádio eles nos avisaram que em duas horas o nosso resgate chegaria. Novamente foi um momento de muita felicidade”, relembra José Francisco.

O resgate foi feito por uma aeronave da Força Aérea Brasileira.

“Eu fui o primeiro a ser içado para a aeronave deles. Depois veio o comandante. Um dos passageiros, havia decidido descer o rio em busca de ajuda. Localizamos ele sentado numa pedra e ele foi, também, resgatado”, relembrou José Francisco.

O que diz a empresa

O engenheiro piauiense, José Francisco Viera; o tenente coronel reserva, Josilei Albino Gonçalves de Freitas; e o mecânico, Gabriel Silva Serra, estavam no helicóptero modelo EC120, matrícula PR-BGF, da empresa Sagres Táxi Aéreo, que caiu na quarta-feira (16) na selva amazônica.

Segundo o Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), o helicóptero foi fabricado no ano 2000 e não tem autorização para atuar como táxi aéreo.

Por meio de nota, a empresa Sagres Táxi Aéreo informou que está prestando assistências às vítimas do acidente.

Adriana Magalhães
redacao@cidadeverde.com

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